AER / Open Data / SP

José Carlos Martinat sobrepõe, ao edifício, uma infraestrutura quase imperceptível ao transeunte. Esta consiste num software que extrai, do website oficial do Portal da Transparência Estadual [1], informação estatística, referente às despesas e receitas do estado de São Paulo. As informações são impressas como recibos fiscais, e os cupons são lançados para o exterior do edifício.

[1] Descrito como a “porta de acesso do cidadão aos principais dados do Governo Paulista” em www.transparencia.sp.gov.br


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AER / Open Data / SP

Grande parte do raciocínio espacial que historicamente atribuía à arquitetura e ao urbanismo a responsabilidade da construção e planejamento do espaço, está sendo cada vez mais afastado delas e se transformando, num produto de decisões que se encontram fora dos seus domínios de ação. A forma física do espaço urbano é a última instância de uma sucessão de processos imateriais que não só passam pelo estabelecimento de diretrizes conceituais do projeto e por uma resposta ao abundante aparato regulatório (leis de zoneamento, código de obras, leis de parcelamento do solo, etc), mas também envolvem decisões, acordos e negociações que acontecem por trás da abstração do capital e por entre as brechas do domínio administrativo e legislativo.

A crescente intangibilidade do desenvolvimento urbano é coerente com o fim para o qual ele é majoritariamente usado; como ferramenta para a construção de uma estrutura espacial de poder, essencial à lógica de reprodução do capital. Este mecanismo encara as cidades como empresas que competem no mercado mundial pela atração de investimentos de grandes corporações e do setor financeiro, numa busca contínua por lucro.

Dentro desta paisagem numérica, o maior capital simbólico é a informação. A capacidade de manusear a discrepância entre narrativa e realidade é uma habilidade indispensável para a implementação de políticas que possibilitem a construção de uma cidade que atenda às expectativas acima descritas.

O equilíbrio entre o que é divulgado e omitido, assim como o jogo entre a concretude da realidade e a sua representação, possibilitam formas não declaradas de governo, que se legitimam através da abstração de gráficos, tabelas e resultados quantificáveis de lucros e despesas. O acesso à informação e o convite à participação da população no processo de construção de uma política urbana dita “democrática e descentralizada, integrada e eficiente” [2], é concomitante a um hermetismo da informação que é disponibilizada, cada vez mais resultante de uma representação ideológica hegemônica da cidade e dissociada da realidade concreta.

Esta forma de entender o “urbano” e produzir “urbanidade” constitui o simulacro de uma pseudo-coletividade onde o que verdadeiramente acontece é a submissão do corpo social às lógicas econômicas. Promovendo a supremacia do espaço abstrato em contraposição ao espaço social e instituindo relações sociais reificadas que conduzem a uma crescente segregação sócio-espacial.

Em todo este processo, a cidade real não passa de uma referencia longínqua e abstrata.


O espaço não pode ser tomado apenas como suporte, receptáculo ou reflexo passivo das condições sociais. A forma do ambiente construído é força produtiva que nos afeta subliminarmente. É também matéria bruta que pode ser trabalhada de modo a propiciar modos de resistência que voem sob o radar das autoridades vigentes.

O espaço como condutor clandestino de informação. Um tipo de informação que não se destina a esclarecer ou solucionar problemas, mas sim interferir, resistir e desfazer os códigos de representação que nos são impostos. Ao engajar física e intelectualmente, incita processos que põem em causa as fronteiras entre o particular e o “comum”, gradualmente erodindo a cidade virtual, edificada pelo marketing urbano e interesses globais, e desfazendo a objetividade das relações sociais por ela instituídas.

Bruno de Almeida | 13.07.2015


[2] Termos usados na página do Ministério das Cidades em PERGUNTAS FREQUENTES > LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO > GERÊNCIA DE CAPACITAÇÃO. http://www.cidades.gov.br


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