Matriz Fantasma (Velhas Estruturas, Novas Glorias)

Matriz Fantasma (Velhas Estruturas, Novas Glorias), 2016

Trapiche de cana-de-açúcar, engenho movido a tração animal ou humana e concebido para moer cana.

02.04.2026 – 23.04.2016 – Trapiche exposto em seu estado inicial.

28.04.2016 – 10.06.2016 – Trapiche desmontado e suas peças catalogadas e rearranjadas.

11.06.2016 – 25.06.2016 – Peças retiradas do espaço. Vestígios do engenho e instalação de áudio com sons de processos ligados àquele objeto.


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Fotos Filipe Berndt


matrizes auto-perpetuantes e a produção utilitária da desigualdade

No século XVII, o bandeirante português Afonso Sardinha montou o primeiro trapiche de cana-de-açúcar da vila de São Paulo na então fazenda Ubatatá, a região hoje conhecida por Butantã. Apesar de parecer um dado secundário para a formação da cidade, o surgimento deste tipo de engenho pressagia a formação de um sistema de relações específicas entre poder e propriedade de terra que precedem o que viria a ser o modelo de estruturação do território Brasileiro ao longo dos últimos séculos.

A exploração canavieira foi a principal “indústria” colonial entre os séculos XVI e XVIII. Esta assinalou uma nova e importante fase na colonização das terras brasileiras, beneficiada pelo casamento estratégico entre o processo extensivo de exploração do solo (vastas áreas de plantio exigidas pela cana) e a estratégia colonial de povoamento e dominação territorial (enormes porções de terra doadas a poucos colonos portugueses). Esta conexão não só se mostrou bastante próspera para os interesses mercantis da época como também favoreceu o enraizamento do modelo latifundiário da monocultura de exportação.

O latifúndio, mais do que uma grande extensão de terra ou estratégia de exploração do solo, era um sistema de dominação sócio-espacial que embasava o poder dos seus proprietários, os “senhores do engenho”. Este grupo restrito tinha pleno domínio familiar, social, político e econômico, fator que impediu a formação de classes intermédias que não estivessem diretamente ligadas a eles ou à produção agrícola que monopolizavam. O poder desta pequena elite fazendeira era representado através da hierarquização espacial instituída na dicotomia casa-grande/senzala, e reiterado na carga simbólica do engenho de cana como objeto-chave da exploração de mão-de-obra escrava, fator preponderante no incremento do tráfico negreiro e na formação de uma vasta base social desprivilegiada.

Por mais longínqua que esta matriz fundiária possa parecer, séculos de história e inúmeras mudanças políticas no país não foram suficientes para apaziguar as suas mazelas e muito menos os traços dessa “formação social” patriarcal e escravocrata. As sucessivas leis que foram criadas no sentido de uma normatização do direito agrário e da organização da propriedade privada, acabaram estrategicamente por reiterar os privilégios e as injustiças em relação à posse e distribuição da terra.[i] Os discursos oficiais continuamente negligenciaram a base concentradora, expropriatória e excludente deste tipo de modelo de exploração do solo e da formação sócio-espacial que lhe é resultante, glorificando o seu caráter produtivista e lucrativo. Sob o novo título de agronegócio foram firmados os latifúndios modernos das grandes empresas (multi)nacionais e dos projetos agrícolas, agroindustriais e agropecuários.

Através deste tipo de processos o Brasil conseguiu passar de eminentemente rural para um país urbano num intervalo de apenas meio século. Mas a herança deste empreendimento econômico secular também deixou suas mazelas nas cidades. O histórico monopólio latifundiário motivou a migração de um grande número de trabalhadores rurais e de populações pobres para cidades que não possuíam uma estrutura adequada para receber este volume populacional. A partir dai se verifica o desdobramento de uma série de fatores que perseveram até hoje, tais como: o aumento explosivo de favelas e loteamentos ilegais; a intensificação da falta de controle sobre o uso e ocupação do solo; o embate entre os interesses do mercado imobiliário e as moradias pobres, que resulta na tentativa constante de afastamento das populações pobres de áreas valorizadas, afastando-as também dos serviços, equipamentos e infraestrutura; entre tantos outros fatores.

Este tipo de forças são claramente decorrentes de uma sociedade patrimonialista, cujos poderes político, econômico e social continuam concentrados nas mãos de uma elite. Um grupo de “senhores” cujo clientelismo político continua forte, lhes permitindo agir como donos de pedaços da cidade, desafiando qualquer perspectiva de impessoalidade e racionalidade no seu planejamento. O espaço (da escala territorial à doméstica) tem sido uma ferramenta central para alimentar um sistema auto-perpetuante de hierarquização racista e classista que garante a manutenção de uma forte dualidade e segregação sócio-espacial.

O fetiche da igualdade que tem sido vendido/consumido no país encobre uma extrema polarização social que apenas se torna visível em momentos de erupção sócio-política, onde ficam claros os traços instituidores de uma organização socioeconômica continuamente (re)fundada num tipo renovado de escravismo e numa sujeição secular ao mercado mundial.

[i] A primeira delas (Lei de Terras, 1850), ao estabelecer que a terra só se poderia adquirir por compra e venda ou por doação do Estado, acabava excluindo a maior parte da população brasileira que não possuía recursos para comprar terras, o que consequentemente colocava o monopólio de terras nas mãos de uma minoria abastada.

Um século depois, em pleno Estado de exceção, o Estatuto da Terra (1964) que se propunha a executar uma reforma agrária, tornando institucional o dever do estado de garantir o direito ao acesso à terra para quem nela vive e trabalha. Mas o que aconteceu na prática foi um forte investimento na agricultura segundo as premissas desenvolvimentistas do país.

Bruno de Almeida | 2016.30.03


[i] A primeira delas (Lei de Terras, 1850), ao estabelecer que a terra só se poderia adquirir por compra e venda ou por doação do Estado, acabava excluindo a maior parte da população brasileira que não possuía recursos para comprar terras, o que consequentemente colocava o monopólio de terras nas mãos de uma minoria abastada. Um século depois, em pleno Estado de exceção, o Estatuto da Terra (1964) que se propunha a executar uma reforma agrária, tornando institucional o dever do estado de garantir o direito ao acesso à terra para quem nela vive e trabalha. Mas o que aconteceu na prática foi um forte investimento na agricultura segundo as premissas desenvolvimentistas do país.


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