Pilar Quinteros

Friendship of Peoples Fountain (Praça da Independência (Maidan Nezalezhnosti), Kiev, Ucrânia), 2014_Cartão e vídeo (41:55 min.)_500 x 600 cm_Fotos: Cortesia Pinchuk Art Centre

Friendship of Peoples Fountain (Praça da Independência (Maidan Nezalezhnosti), Kiev, Ucrânia), 2014_Cartão e vídeo (41:55 min.)_500 x 600 cm_Foto: Cortesia Pinchuk Art Centre

A ingenuidade formal e o caráter lúdico das obras de Pilar Quinteros encobrem uma articulação perspicaz e sensível de complexas questões relacionadas às histórias e dinâmicas inerentes aos locais onde a artista intervém. Geralmente concebidas para espaços públicos, as suas obras beneficiam-se desta aparente inocência formal para envolver os transeuntes em questões ligadas a processos sociais, econômicos e políticos, que perpassam a história do local e as conectam a dinâmicas urbanas mais complexas.

Embora a obra de Pilar seja fundamentalmente movida por uma grande curiosidade e por uma relação afetiva com os lugares onde atua, pode-se também interpretar o seu trabalho como uma reação instintiva aos efeitos sócio-espaciais do “funcionalismo” urbano trazido pelo “boom econômico” do Chile. Este resultou numa acelerada mutação das cidades que não só colocou em crise o seu patrimônio arquitetônico, como também fragmentou e dizimou um conjunto de memórias comunitárias associadas a edifícios e espaços que já não mais existem. A inquietação causada por esta experiência imprimiu traços recorrentes no trabalho de Pilar, assentes nas dicotomias entre: ausência e presença; construção e destruição, e entre aquilo que existiu e o que foi apenas imaginado.

Estas inquietações são testadas e comunicadas através de uma atuação direta e, muitas vezes desautorizada, no espaço público. A artista elege as lacunas (espaciais e temporais) da cidade: seus vazios, interstícios e ausências e ai, reconstrói elementos urbanos faltantes, duplica outros já existentes, reconstrói grandes fragmentos de edifícios já destruídos ou nunca realizados e os coloca no lugar onde estariam, constrói próteses à escala 1:1 para edifícios semi-destruídos, inventa vestígios de outros tempos e civilizações e os justapõe aos espaços de hoje, assim como tantas outras operações que se colocam num limbo entre fato e ficção, entre uma pesquisa rigorosa e uma boa dose de liberdade poética.

Na construção de suas peças Pilar utiliza materiais comuns e fáceis de manipular com as suas próprias mãos, tais como cartão, papelão, plástico e tecido. Para a artista é extremamente importante ter um total envolvimento na feitura manual de suas obras. Este comprometimento garante que a forma final do trabalho carregue a sua inconfundível caligrafia pessoal. A vibração formal dada pelas suas mãos faz com que as suas esculturas sejam como desenhos, a base de todo o seu processo criativo, assim, a obra termina onde começa. Por trabalhar frequentemente com obras de grande escala, a construção das suas peças é realizada quase inteiramente no ateliê e estas são subdivididas em partes menores, o que facilita o seu fabrico, transporte e montagem no exterior. Ao juntar amigos e voluntários para ajudá-la a carregar as diversas peças pelas ruas até ao local determinado e aí montá-las em conjunto, a artista transforma uma inevitabilidade prática num evento alegórico e disruptivo do quotidiano da cidade.

Em todo este processo o vídeo é um elemento central, não só porque documenta todas as etapas do trabalho mas porque é um registo pessoal das façanhas realizadas pela artista. Esta documentação ganha uma grande carga afetiva para Pilar especialmente porque quase todas as suas obras são fugazes, sendo facilmente destruídas devido à fragilidade dos seus materiais e construção. A inerente (auto)destruição de suas obras, performada no espaço público, contraria a lógica didática e demagógica dos monumentos e do patrimônio edificado, colocando também em confronto a ideia ilusória de permanência que estes preconizam versus a volatilidade, mutabilidade e perecibilidade dos espaços e estruturas construídos pelo Homem.

Bruno de Almeida | 2017.03.12

Telefono Público, 2009_Cartão branco_60 x 40 x 20 cm

Farol Alameda, 2009_Cartão branco_100 x 600 cm

Restauración I (Museo de Arte Contemporáneo, Santiago, Chile), 2010_Cartão branco e vídeo (14:33 min.)_Dimensões variáveis

Reconstrucción Estación Pirque, 2010_Cartão branco e vídeo (20:03 min.)_300 x 600 x 60 cm

Cementerio Indio, 2015_Técnica mista e vídeo (13:50min)_Dimensões variáveis

Cathedral of Freedom, 2015_Papelão, madeira, garrafas de plástico, tinta e vídeo (20:13min)_Cortesia Museu de Artes Gráficas, Liubliana, Eslovênia_Foto: Urska Boljkovac

Lago Bulo, 2016_Papel, tinta e vídeo_Dimensões variáveis_Foto: Maria José Catalan

Oopart, 2016_Técnica Mista_Dimensões variáveis

Smoke Signals, 2016_Gesso, grama, madeira e vídeo (70:18 min)_400 x 250 x 80 cm


 clique aqui para visitar o website da artista


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