Amigos do Movimento Perpétuo

Réplica da torre de relógio da Estação da Luz1 instalada na horizontal sobre o edifício da Galeria Leme2. Durante a exposição a torre é deslocada uma vez, assumindo uma segunda posição sobre a cobertura.

1 – Estação da Luz: Estação ferroviária cuja estrutura metálica foi trazida do Reino Unido. Desde 1867 sofreu contínuas modificações e reconstruções; ampliada em 1870, reconstruída entre 1895 e 1901 (projeto atual), destruída por um incêndio em 1946, reedificada entre 1947 a 1951, modificada de 2004 a 2006, semidestruída por outro incêndio em 2015 e atualmente em processo parcial de reestruturação até 2018.

2 – Galeria Leme: Construída em 2004, demolida em 2011 e reconstruída no mesmo ano a poucos metros da sua locação original. O edifício atual é réplica do projeto inicial ao qual foi adicionado uma construção adjacente.



deslocamentos, tempos e espaços amnésicos

O vulto do tempo paira sobre o Homem desde o momento em que este se depara com a transitoriedade imanente do seu entorno físico. O tempo é simultaneamente uma experiência individual, existencial e subjetiva, como também algo que conecta o sujeito a forças maiores, naturais, sociais entre outras mais insondáveis. A necessidade Humana de se saber pertencente a um continuum que torne a sua existência inteligível é expressa na vontade de sincronizar os seus eventos periódicos (comemorações, feriados, etc.) ao caráter cíclico dos movimentos da natureza e dos corpos celestes (solstícios, fases da lua, estações, etc.), assim como a uma genealogia de acontecimentos passados que formam uma história comum. “Minutos” e “segundos” não são apenas intervalos de tempo, mas também medidas angulares de distâncias na superfície da terra que determinam com precisão a posição do Homem no território. O tempo nos acolhe e localiza, é uma forma de mensurar o intervalo relativo entre sequências de eventos, tal como a distância o faz para as posições dos corpos no espaço.[i]

A mudança de posição no tempo é aquilo que entendemos como “movimento”, conceito que conjuga a inseparabilidade da noção de espaço e tempo. A possibilidade de um deslocamento cada vez mais rápido pelo território foi um dos principais impulsionadores de uma radical mudança na concepção de tempo na contemporaneidade. O fator que consumou esta mutação foi o advento do transporte ferroviário, fruto da Revolução Industrial na Grã-Bretanha. A rapidez deste transporte coletivo possibilitava o atravessamento de vários municípios com distintas horas locais baseadas empiricamente na posição do Sol. Ao cruzar uma miríade de tempos locais tornava-se necessário o constante reajuste dos relógios, pois qualquer erro ou imprecisão poderia causar atrasos ou acidentes. O aumento da eficiência e segurança deste processo tornou urgente a criação de um referente compartilhado para a determinação do tempo. Assim, antecipando-se às convenções políticas ou científicas, as companhias ferroviárias foram as primeiras a colocar em prática a hora-padrão, tomando Londres como referência a partir da qual se calculavam todas as outras zonas horárias. Após esta convenção os relógios das estações ferroviárias ganharam dois grupos de ponteiros, um marcando a hora local e outro apontando o tempo padronizado, “Railway Time”. Gradualmente o “padrão” se impôs ao “local” e na segunda metade do século XIX foi instituído o primeiro modelo internacional de tempo civil, após a formalização de Greenwich como meridiano primo a partir do qual se dividiu a superfície terrestre em 24 zonas de tempo.

A implementação desta convenção abstrata paralelamente à difusão mundial do transporte ferroviário assinalava a chegada de uma outra temporalidade global associada a novas formas de movimento que carregavam ideais hegemônicos e Eurocêntricos de modernidade, razão e progresso. Esta colonização espaciotemporal impôs-se tanto pela transmutação de noções abstratas de tempo-espaço como por uma atuação direta no ambiente construído. Tal intervenção física foi potenciada pela facilidade de produção e transporte global de peças industriais pré-fabricadas, que variavam desde pequenos componentes até elementos estruturais e ornamentais de grandes edifícios. Um dos símbolos mais difundidos e também mais sintomáticos deste processo de transculturação espaciotemporal é a torre de relógio das estações ferroviárias. A noção de tempo público associada à monumentalidade da torre é um aspecto recorrente em diversas culturas ao longo da história da Humanidade. Mas a presença ciclópica das torres de relógio ferroviárias exprimia uma outra noção de tempo que subordinava todos os cidadãos a uma existência autômata de precisão, uniformidade e eficiência baseadas numa “economia de tempo” e em novas formas de encarar o “valor do tempo” fortemente relacionadas com o fluxo ininterrupto de pessoas e bens pelo território.[ii]

A presença destacada na cidade de tais relógios parece antever a recém-conquistada supremacia do tempo sobre o espaço. Não podendo atuar diretamente sobre dimensões abstratas, o Homem atua sobre o espaço como meio de controlar o tempo.[iii] Deste modo, a cidade não é apenas estruturada a partir do resultado fortuito de temporalidades díspares, mas também calculada de forma a impor determinados tempos aos seus cidadãos. A otimização da duração do deslocamento dos cidadãos, por exemplo, é um fator-chave na organização do espaço urbano e na dominação social exercida por ela. O controle dos tempos de deslocamento dentro das cidades é um dos principais mecanismos de segregação sócio-espacial, tendo reverberações muito evidentes na hierarquia territorial, expressa na dicotomia entre centro e periferia e na oscilação do preço da terra entre zonas mais ou menos acessíveis, para citar alguns exemplos. Por outro lado, a aceleração do tempo de mutação da cidade, assente em processos de demolição-construção, institui uma esfera pública volátil que espelha uma descartabilidade de qualquer estrutura física assim como da vida dos cidadãos. Tal espaço produz um tempo amnésico, incapaz de apreender o constante porvir, deslocamento e desaparição do seu meio físico.

Bruno de Almeida

2017.03.24


[i] RADOVAN, Mario. On the Nature of Time, Universidade da Rijeka, Rijeka, Croácia, 2015.

[ii] PETERS, John Durham. “Calendar, Clock, Tower” in Deus in Machina, Fordham University Press, Nova Iorque, EUA, 2012.

[iii] VILLAÇA, Flávio. Reflexões Sobre as Cidades Brasileiras, Studio Nobel, São Paulo, Brasil, 2012, p.69.


Fotos: Filipe Berndt

A sexta edição do SITU conta com o apoio de:


 

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