Errata

Pintura produzida por um grafiteiro com o desenho de um muro de pedras sobre um trecho da fachada. O grafite se sobrepõe parcialmente a uma série de marcas (tags, desenhos, pichações) já existentes. O “muro de pedras” é um motivo comumente encontrado pela cidade de São Paulo, utilizado para recobrir ou refrear pinturas indesejadas sobre paredes de imóveis.

Obstáculos viários de concreto, comumente chamados “tartarugas”, pintados com o mesmo padrão da pintura da fachada. As peças são distribuídas pelo pátio do edifício, que é aberto ao espaço público mas também funciona como estacionamento privado.



escrituras sócio-territoriais

do contrato à contranarrativa

No cotidiano anônimo da vida urbana, onde o diálogo com o concidadão pode ser facilmente evitado, a cidade impõe uma constante e inescapável interlocução, atuando como uma interface comunicacional entre o sujeito que a vive e uma multiplicidade de discursos que desenham o seu território. O espaço urbano é resultado da sedimentação e corporificação de uma série de narrativas pertencentes a diferentes tempos, autores e ideologias, mas o seu caráter polissêmico é regulado e homogeneizado por um discurso oficial que difunde um conjunto de valores e normas públicas. Estes servem para organizar e auxiliar a vida cotidiana da urbe, mas também para controlar e impossibilitar qualquer tipo de expressão que vá na contramão daquela legislada. Tais códigos de conduta não só se fundem com o vocabulário visual da cidade, tornando-se indissociáveis da maneira como esta é lida, mas também se corporificam em elementos cuja presença condiciona o livre trânsito do cidadão, tornando-se inseparáveis da sua experiência física do espaço. Estas estratégias, das mais subliminares àquelas que praticamente impossibilitam a contestação, são implementadas da escala do corpo até à escala da metrópole, gradualmente moldando a autoimagem e a consciência cívica do indivíduo.

Mas este processo não é unidirecional, a cidade também tem a sua própria identidade constantemente renovada através das inúmeras representações discursivas que lhe são justapostas. Esta se vê entregue a movimentos que tensionam a sua normatividade e a impregnam de narrativas não comprometidas com as oficiais. Mais do que um convite à interlocução, tais manifestações redefinem os espaços de fala face ao discurso prevalecente. A sua linguagem também é pública, mas não passa pelo poder oficial. A sua iconografia é fruto de uma consciência coletiva e subjetiva, mas não se sujeita à uniformização da legislação urbana. A sua formalização não se prende aos padrões estéticos legitimados pela cultura dominante que, no entanto, não deixa de tentar incoporá-la e domesticá-la, reconhecendo-a como possibilidade estética e assim anulando o seu caráter marginal e de resistência. Em outros casos, ela simplesmente expressa o gosto de um determinado grupo social, e a especificidade de seu códigos comunicacionais consegue romper a estreiteza das relações sociais reificadas pelo marketing visual e azedar um consenso fictício, instituído oficialmente como princípio e fim e não como resultado da discussão e negociação de interesses divergentes. Tais contranarrativas, desde as subversivas àquelas sem pretensões críticas, criam fissuras na urbe que permitem vislumbrar o defasamento entre o discurso que se refere à cidade e outros que provêm dela.

A manutenção desta discrepância é essencial para sustentar a narrativa sobre uma cidade controlada e sem perturbações. Metrópole “requalificada”, “higienizada” e “iconificada” por grandes empreendimentos que dinamizam o mercado e comercializam uma sensação genérica de “orgulho cívico”. Instituem-se espaços-commodity, despolitizados, que não só se isentam de qualquer responsabilidade sobre a raiz dos problemas urbanos mas também camuflam os mecanismos e as consequências da sua produção. Cria-se assim um ambiente cujas narrativas não servem apenas para normatizar e regular mas também para produzir simulacros, persuadindo e satisfazendo parte da população e excluindo todos os outros que não se adequam ao perfil desejado. Sob uma retórica da manutenção da paz urbana, tais discursos geram uma estetização do medo, sustentada por noções estereotipadas de marginalidade, delinquência e criminalidade. Esta situação incita formas mais explícitas de controle e exclusão, reitera a necessidade de uma fortificação espacial da cidade e afirma a urgência de expurgar dela quaisquer linguagens desviantes, especialmente aquelas que usam o ambiente construído como seu principal meio de difusão.

O combate à reivindicação simbólica do espaço que contraria o discurso dominante é justificado como medida para impedir a depredação do patrimônio construído e validado sob a justificativa de embelezamento e higienização urbana, entre outros. Paradoxalmente muitas destas estratégias oficiais acabam também por se configurar como máculas sobre uma cidade pretensamente “normatizada” e “apaziguada”. Surgem outras variações desses mesmos mecanismos que operam num registro mais dissimulado. Algumas, por exemplo, cooptam as narrativas marginais destituindo-lhes o caráter subversivo, outras evitam uma linguagem ilícita através de linguagens congêneres, como no caso do grafite que é usado para impedir a pichação, jogando com uma espécie de código de conduta entre diferentes agentes. Estas e outras estratégias gradualmente se entranham no glossário urbano e são disseminadas e reinterpretadas por cada grupo social ou indivíduo, adaptando-se à especificidade dos seus contextos e de seus critérios. Desta forma, criam-se novos vocabulários defensivos cuja replicação ad infinitum torna-os cada vez mais autônomos do seu propósito original. Coíbem a todos e a ninguém, criando lugares marcados por uma tensão subliminar e ambígua, nos quais se confunde o que controla e o que é controlado, o que ameaça e o que é ameaçado.

Bruno de Almeida

27.10.2017


Fotos: Filipe Berndt

Programação oficial da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo:

 

 



A sétima edição do SITU conta com o apoio de:

 



 

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