Proposta Curatorial

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Se, por um lado, a arquitetura e o urbanismo se debatem contra o ritmo desenfreado da expansão não-sustentável da cidade contemporânea. Por outro, a arte contemporânea nunca esteve tão inserida no compasso da cultura de massa que procurou observar a uma certa distância crítica.

Enquanto o arquiteto tenta resgatar o seu papel para além de um mero prestador de serviços dentro de um jogo político-econômico. O artista questiona o seu estatuto, refutando noções de especialização e movendo-se fluidamente entre meios artísticos e não-artísticos, numa tentativa incessante em expandir os domínios da arte para lá dos seus campos cômodos de atuação.

A cidade e a cultura são os territórios por onde estes agentes se movem. Os seus percursos convergem no anseio por um atrito com o status quo, que possibilite novas maneiras de encarar e reconfigurar esses mesmos domínios. Contudo, no momento atual, qualquer gesto crítico é rapidamente absorvido e neutralizado pelas forças omnipresentes do capital e da abrangente indústria cultural. Consequentemente, a arte e a arquitetura se veem sendo usadas como ornamento do poder político-econômico camuflado sob a prerrogativa de valor cultural.

Para que estas disciplinas possam recuperar a sua potência subversiva sobre a esfera pública, é urgente repensar estratégias para além do protecionismo territorial das “profissões”, com seus limites disciplinares e hierarquias estipuladas. Criando novas formas de engendrar a produção do espaço como ferramenta de erosão das ideologias que nutrem as relações de dominação. E resgatando a preeminência da obra, não como representação inócua da realidade, mas como circunstância de compromisso ético-estético de um duplo engajamento do corpo e do intelecto, através da qual se possa problematizar e propagar questões prementes.

A vontade de gerar um movimento nessa direção está na base do projeto SITU. Uma plataforma de produção e pesquisa artística, que explora as potencialidades de um diálogo entre arte, arquitetura e cidade, indagando quais as suas possíveis reverberações e contribuições para uma problematização mais alargada da urbanidade contemporânea como matriz físico-social.

SITU circunscreve o seu foco de pesquisa e atuação ao edifício da Galeria Leme, em São Paulo, Brasil. Esta opção se motiva, por um lado, pelo seu projeto, de um autor central da escola de arquitetura paulistana. Por outro, pela sua inserção numa área de complexa dinâmica sócio-urbana, que explicita as forças formadoras da cidade. E finalmente, pela própria história do edifício, que é sintomática dos processos de evolução urbana de São Paulo e de tantas outras metrópoles do sul geopolítico.

Localizada no bairro do Butantã, na marginal do rio Pinheiros, a Galeria Leme está dentro de uma zona onde se constitui, desde os anos 1990, um novo centro financeiro de São Paulo. Uma “paisagem de poder”, pontuada por altos edifícios de grandes empresas multinacionais, que se ergueu em meio à emergência do capital financeiro e à ascensão das “parcerias público-privadas” como grandes promotores do novo cenário urbano.

A galeria, comissionada ao arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha e construída em 2004, testemunhou a reconfiguração deste território que envolveu inúmeras desapropriações e a limpeza dos terrenos para proveito da especulação imobiliária e do grande capital privado transnacional. Em 2010, todo o quarteirão onde a galeria se encontrava foi comprado por uma corporação multinacional, e consequentemente o edifício da Leme teve de ser demolido. Mas, como se tratava de um projeto de autor, este processo não aconteceu sem antes ser negociada uma realocação do edifício para um terreno próximo. Reconstruída em 2012, a atual Galeria Leme é uma réplica do seu projeto inicial, à qual foi adicionada uma construção adjacente, projetada de novo por Mendes da Rocha em colaboração com o escritório paulistano Metro Arquitetos Associados. Entre o clone da edificação original e da nova, foi desenhado um espaço exterior que se abre para a cidade e no qual se articula a memória do edifício antigo e do seu vizinho contemporâneo.

É nesse espaço externo que SITU incide, comissionando uma série de artistas para, um após o outro, se apropriarem dele, arquitetando obras temporárias e site-specific, que se relacionem tanto com a arquitetura e história do edifício, quanto com o espaço público contíguo e o seu contexto alargado.

O foco curatorial recai sobre artistas cujas pesquisas gravitem em torno de problemáticas arquitetônicas e do espaço urbano, assim como outros temas tangenciais. Por outro lado, incide em artistas Latino-Americanos, já que estes possuem um outro entendimento intelectual e corporal do espaço, que advém de uma intensa familiaridade com a complexidade da esfera pública e dos processos urbanos e sociais que são específicos à América Latina.

Através do encadeamento de uma séria díspar de pesquisas e propostas e da sua consequente discussão, talvez se consiga criar uma meta-narrativa que faça com que estas intervenções não sejam vistas isoladamente, mas sim, como parte de uma estratégia maior. À semelhança da história do edifício da galeria, que mimetiza, numa escala menor, os processos da evolução urbana de São Paulo. Talvez, as propostas aqui ensaiadas, possam funcionar como vetores que, surgindo numa micro-escala, criem forças ativas e desencadeadoras do sentir/pensar que procedam por variação, expansão e conquista, podendo eventualmente reverberar a uma macro-escala.

Um começo é isso, não a origem, mas o devir numa força de ruptura dos contextos, das referencias, das destinações.

Bruno de Almeida


Bruno de Almeida, 1987, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo, Brasil.

Graduado em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Portugal (2009). Mestre em Arquitetura pela Accademia di Architettura, Mendrisio, Suíça (2013). Trabalhou como arquiteto em Londres, Reino Unido (2010-2011), e como assistente curatorial no Instituto de Investigação Independente da Fondazione Archivio del Moderno, Mendrisio, Suíça (2012).

Criador e curador do SITU (2015 – em curso), uma plataforma de produção e pesquisa artística que investiga o diálogo entre arte, arquitetura e cidade como ferramenta para problematizar aspectos sócio-espaciais da urbanidade contemporânea. Recentemente Bruno de Almeida desenvolveu projetos com instituições tais como: Kunsthalle São Paulo, Brasil; Pivô Arte e Pesquisa, São Paulo, Brasil; Storefront for Art and Architecture, Nova Iorque, EUA, entre outras. Sua pesquisa e projetos foram publicados em: ARTFORUM International Magazine, EUA; ATLÁNTICA Journal of Art and Thought, Centro Atlántico de Arte Moderno, Espanha; TELLING #2, T+U Architectural Publications, Portugal; Revista aU – Arquitetura & Urbanismo, São Paulo, Brasil; Bamboo, São Paulo, Brasil, entre outras.



Si por un lado, la arquitectura y el urbanismo se debaten contra el ritmo desenfrenado de la insostenible expansión de la ciudad contemporánea. Por el otro, el arte contemporáneo nunca estuvo tan inserto en la cultura de masas que procuró observar con una cierta distancia crítica.

Mientras el arquitecto intenta rescatar su posición profesional más allá de un simple proveedor de servicios dentro de un juego político-económico. El artista contemporáneo cuestiona su status, refutando nociones de especialización y moviéndose fluidamente entre los medios artísticos y los no artísticos, en una tentativa incesante de expandir los dominios del arte más allá de sus confortables campos de actividad.

La ciudad y la cultura son los territorios en los que se mueven estos agentes. Sus caminos convergen en el deseo de producir una fricción con el status quo, que posibilite nuevas maneras de mirar y reconfigurar esos mismos dominios. Sin embargo, en la actualidad, cualquier gesto crítico es rápidamente absorbido y neutralizado por las fuerzas omnipresentes del capital y de la industria cultural. Consecuentemente, el arte y la arquitectura son utilizados como adornos del poder político y económico camuflado bajo la prerrogativa de valor cultural.

Para que estas disciplinas puedan recuperar su potencia subversiva sobre la esfera pública, es urgente repensar estrategias más allá del proteccionismo territorial de las “profesiones”, con sus límites disciplinarios y jerarquías estipuladas. Creando nuevas formas de engendrar la producción del espacio como herramienta de erosión de las ideologías que nutren las relaciones de dominación. Y rescatando la importancia de la obra, no como representación inocua de la realidad, sino como circunstancia de compromiso ético-estético, involucrando una doble participación del cuerpo y el intelecto, a través de la cual se pueda problematizar y propagar cuestiones urgentes.

El deseo de generar un movimiento en esta dirección es la base del proyecto SITU. Una plataforma de producción e investigación artística, que explora el debate sobre la potencialidad de un diálogo entre arte, arquitectura y ciudad, indagando sus posibles repercusiones y contribuciones a un cuestionamiento más amplio de la urbanidad contemporánea como matriz físico-social.

SITU circunscribe su investigación e intervención al edificio de la Galeria Leme en São Paulo, Brasil. Esta opción es motivada, por un lado, por su proyecto, de un autor central de la escuela de arquitectura paulistana. Por otro, por su inserción en un área de compleja dinámica social y urbana, que explicita las fuerzas formadoras de la ciudad. Y finalmente, por la propia historia del edificio, que es sintomática de los procesos de la evolución urbana de São Paulo y de tantas otras metrópolis del sur geopolítico.

Localizada en el barrio de Butantã, en los márgenes del río Pinheiros, Galeria Leme está dentro de un área donde se constituye, desde los años 1990, un nuevo centro financiero de São Paulo. Un “paisaje de poder”, punteada por altos edificios de grandes corporaciones multinacionales, que se instituyó en medio de la emergencia del capital financiero y del ascenso de las “alianzas público-privadas” como grandes promotores del nuevo escenario urbano.

La galería, comisionada al arquitecto brasileño Paulo Mendes da Rocha, construida en 2004, presenció la reconfiguración de este territorio que envuelve innumerables desapropiaciones y limpieza de los terrenos para beneficio de la especulación inmobiliaria y del gran capital privado transnacional. En 2010, una corporación multinacional compró toda la manzana donde la galería estaba ubicada y consecuentemente el edificio tuvo que ser demolido. Pero como se trataba de un proyecto de autor, este proceso no aconteció sin antes ser negociada la relocalización del edificio en un terreno próximo. Reconstruida en 2012, la actual Galeria Leme es una réplica del proyecto inicial, a la cual se adicionó una construcción adyacente, diseñada nuevamente por Mendes da Rocha en colaboración con el estudio paulistano Metro Arquitectos. Entre el clon de la edificación original y la nueva, fue diseñado un espacio exterior que se abre para la ciudad y en el cual se articula la memoria del edificio antiguo y de su vecino contemporáneo.

Es en ese espacio externo donde SITU se centra, comisionando una serie de artistas que, uno tras otro, se apropiarán de él, elaborando obras temporarias y site-specific, que se relacionan tanto con la arquitectura como con la historia del edificio, al igual que con el espacio público contiguo y su contexto más amplio.

El foco curatorial recae sobre artistas cuyas investigaciones se desarrollan en torno a problemáticas arquitectónicas y del espacio urbano, así como otros temas tangenciales. Además, incide en artistas latinoamericanos, ya que poseen otro entendimiento intelectual y corporal sobre el espacio, que proviene de una intensa familiaridad con la complejidad de la esfera pública y de los procesos urbanos y sociales específicos de América Latina.

A través del encadenamiento de una serie dispar de investigaciones y propuestas y de su consecuente discusión, quizás se consiga crear una meta-narrativa que haga que estas intervenciones no sean vistas en forma aislada, sino más bien como parte de una estrategia mayor. De manera similar a la historia de la construcción de la galería, que imita, en una escala menor, los procesos de la evolución urbana de São Paulo. Tal vez las propuestas elaboradas aquí pueden funcionar como vectores que, surgiendo en una micro-escala, creen fuerzas activas y desencadenantes del sentir/pensar que procedan por la variación, expansión y conquista, pudiendo eventualmente repercutir a una macro-escala.

Un comienzo es eso, no el origen, pero el convertirse en una fuerza de ruptura de los contextos, de referencia, y de los destinos.

Bruno de Almeida


Bruno de Almeida, 1987, Brasil. Vive y trabaja en São Paulo, Brasil.

Graduado en arquitectura por la Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Portugal. Master en arquitectura por la Accademia di Architettura della Svizzera Italiana, Mendrisio, Suiza. Trabajó como arquitecto en en Londres, Reino Unido. Fue asistente curatorial en el Instituto de Investigación Independiente de la Fonzdazione Archivio del Moderno, Mendrisio, Suiza. Desarrolla una investigación independiente centrada en las intersecciones entre las prácticas artísticas y arquitectónicas, así como su inserción en el espacio urbano y su repercusión social.



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