Cielo Raso*

Blocos de concreto com as mesmas dimensões da malha ortogonal marcada nas fachadas de concreto da Galeria Leme, resultante da modulação das fôrmas usadas na sua construção. Blocos dispostos horizontalmente numa composição que delineia um vazio central com a forma de cruz escalonada, também denominada de cruz Inca ou Chakana. Parafusos, pregos e linhas de grafite e de folha-de-ouro desenhando o mapa das rotas terrestres da América do Sul sobre os blocos e o chão.

* “Cielo Raso” é uma expressão em castelhano para se referir à estrutura arquitetônica denominada “teto rebaixado” ou “teto falso”. O título joga com o significado ambíguo de sua tradução literal – Céu Raso.


situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view-front-1_photo-filipe-berndt-reduced_1420px situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view-front_photo-filipe-berndt-reduced_1420px _situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view-from-the-top_photo-filipe-berndt_1420px(clique abaixo para visualizar a planta esquemática da instalação e sua organização)

planta-sandra-gamarra-pt_1420px situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view-3_photo-filipe-berndt-reduced_1420px situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view-4_photo-filipe-berndt-reduced_1420px situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view-1_photo-filipe-berndt-reduced_1420px situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view-2_photo-filipe-berndt-reduced_1420px situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view_detail_photo-filipe-berndt-reduced_1420px situ-5_sandra-gamarra_cielo-raso_installation-view_detail-1_photo-filipe-berndt-reduced_1420pxFotos:Filipe Berndt


entre signo e coordenada

“… Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz.”

Lúcio Costa. Relatório do Plano Piloto de Brasília, 1956. p.1

O gesto simbólico de Lúcio Costa no desenho de Brasília carrega em si a milenar necessidade humana de se localizar no mundo. Com o cruzamento de dois eixos no espaço o homem funda o lugar e estabelece o ponto de partida do conjunto de coordenadas que o fixa e o relaciona com o entorno. A figura geométrica originada através desta interseção, a cruz, é um dos símbolos mais antigos da história da humanidade. Utilizada desde o período Neolítico, os diferentes tipos de cruz indiciam as distintas formas de estar física e ideologicamente no mundo. Aos dois eixos horizontais (x, y) se intersecta um vertical (z), definido pela posição ereta do corpo humano. Este não só estabelece o espaço tridimensional como também edifica uma ponte simbólica entre o Homem e o divino, representado pelo céu. A reciprocidade entre o entendimento do território e o do cosmos norteou a descoberta de novos mundos, alimentou crenças e localizou cidades e edifícios, moldando as formas da vida humana. Ao unir os pontos da retícula estelar cada povo desenhou a sua própria fisionomia, traçando no céu uma miríade de cosmovisões no desejo comum de se localizar. Por entre desenhos e interpretações díspares podemos encontrar um símbolo compartilhado que sintetiza esse anseio humano, uma cruz traçada a partir da união de quatro corpos celestes, o Cruzeiro do Sul.

A sua força simbólica perpassa diferentes culturas e noções de astronomia, desde as ocidentais até às aborígenes e indígenas do hemisfério sul. Em quéchua, uma das línguas da civilização Inca, o Cruzeiro do Sul é denominado de Chakana, que também é o nome da cruz Inca, símbolo central para as culturas pré-colombianas. Cruz quadrada, escalonada e com doze pontas, a sua geometria é totalmente baseada em observações dos corpos celestes e dos ciclos naturais. As suas quatro faces representam os quatro sentidos e as quatro estações e cada segmento é escalonado em três degraus que simbolizam os mundos dos deuses, dos homens e dos mortos.

Se na maioria das cruzes o ponto de interseção de ambas as retas define a coordenada-base do lugar do Homem no mundo, na Chakana essa interseção não existe, é um vazio circular. Para a mitologia andina o centro desta cruz representa o desconhecido, o inimaginável e o sagrado. Deste modo, a simbologia e a geometria da Chakana parecem negar o determinismo dessa coordenada-base em prol de outras noções de espaço-tempo. Tal forma de entender a relação do Homem com o seu mundo não significa uma imprecisão na definição e planejamento do espaço. Vários povoados pré-colombianos usavam uma malha geométrica ortogonal tanto à escala urbana quanto à do edifício, não muito diferente daquela que conhecemos hoje. Mas o grid pré-colombiano está para além da mera apropriação racional do espaço através da geometria e da matemática. Este se insere dentro de uma lógica maior, estabelecida pela natureza e pelo cosmos e é o meio através do qual se dá uma completa união entre a vida/cultura humana, o natural e o divino. Esta noção de geometria sintetizada na forma sagrada da Chakana, perpassa desde o léxico arquitetônico a vários outros elementos da vida cotidiana, chegando até ao corpo, na malha geométrica dos tecidos ou das pinturas ritualísticas sobre a pele.

A este entendimento simbólico-espacial da geometria se justapôs, séculos mais tarde, um outro trazido pelos colonizadores espanhóis e expresso no traçado das suas novas cidades. Apesar de algumas semelhanças formais à matriz pré-colombiana este grid ocidental se aliava a um ímpeto em direção ao futuro e representava a ordem humana perante o “caos” da natureza e das narrativas históricas pré-existentes. Este novo sistema tornava tangível novas noções de propriedade da terra e enfatizava a dicotomia público-privado, formas de entender a realidade contrárias àquelas dos povos colonizados. Deste modo, esta malha se configurou como uma estratégia de transculturação por meio de uma atuação direta no espaço e no corpo. Um modus operandi reiterado posteriormente em inúmeros planos modernistas, sob um outro conjunto de princípios globais que reafirmavam o grid como um meio para a aplicação de uma lógica racional de serialização e estandardização de espaços, produtos e formas de vida.

No limbo entre ferramenta de entendimento do mundo e instrumento ativo na sua construção, este sistema geométrico se configura como uma estrutura cultural, erigida tanto por processos científicos e quantificáveis quanto por posições espirituais, políticas ou morais. Deste modo, é um mecanismo simbólico-espacial com linhas-de-força adaptadas às necessidades e interesses daqueles que as produzem, determinando desde os roteiros da vida quotidiana a distintas cosmovisões.

Bruno de Almeida | 2016.08.25


Advertisements

One comment

  1. Pingback: SITU | BRUNOdeALMEIDA

Deixe um comentário | Leave a comment

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: