Ana Dias Batista

Mareado, 2005_moving-heads, mesa de luz e pintura sobre as paredes executada por grafiteiro contratado pela artista, representando cortinas. Os focos de luz deslocam-se horizontalmente em sincronia_Dimensões variáveis_Fotos: Edouard Fraipont

A aparência familiar que se atribui intuitivamente às obras de Ana Dias Batista é contrariada, sob um olhar mais atento, por um conjunto de comportamentos e configurações enigmáticas que destoam da conduta normal dos elementos, mas que, paradoxalmente, parecem ter-lhes sempre pertencido. Através de procedimentos sucintos, aproximando-se das mesmas lógicas, técnicas e usos associados a esses itens do mundo cotidiano, a artista capta o seu caráter informe e os transfigura, ressignificando a sua presença material e separando-os dessas demais “coisas”. Mas essa propriedade que distingue “o trabalho” parece conviver em equivalência com todas aquelas características que banalmente são atribuídas à coisa normal. Assim, cada trabalho de Ana Dias Batista continuamente põe à prova o seu estatuto e sua autonomia frente à “normalidade” dos demais objetos, procedimentos e espaços coloquiais.

Tanto as diretrizes estabelecidas para a produção de suas obras quanto os procedimentos que lhes são aplicados posteriormente reiteram essa permutabilidade entre referência e referente. A artista prefere elementos marcados por uma certa obsolescência, como se libertados dos seus usos originais, ou aqueles que citam outros mas que se autonomizaram de seus referentes e da sua genealogia. Delega a execução de suas peças aos mesmos profissionais que produziriam o produto padrão, mas subverte e reformula os seus processos, gerando um excedente de esforço que transforma o trabalho normalizado num exercício que ilude uma praticidade e uma finalidade objetivas. Explora também procedimentos como as variações de escala, alterando o uso comum dessa relação matemática que permite criar correspondências entre as dimensões no “real” e das representações bi- ou tridimensionais. Estas e outras metodologias geram objetos desnaturalizados e emancipados, desregulando a percepção intelectual e corporal que o espectador estabelece com eles.

O encontro do indivíduo com a obra é potencializado por uma cuidadosa atenção que a artista atribui ao contexto espacial que os situa. As suas obras operam frequentemente como reiterações dos espaços onde se encontram; seja ao enfatizar tendências inerentes aos locais, seja ao deformar a sua materialidade, ou até mesmo ao inventar falsas arquiteturas que se relacionam com as configurações originais do lugar. A experiência desta afinidade entre obra e espaço faz crer que os seus objetos possam partilhar propriedades com o local que os contém, gerando também aqui uma permutabilidade entre o “mundo” e a “obra” e uma indefinição entre o que é o “conteúdo” e o que é o “contentor”. Há a sensação de que cada um deles reivindica a sua autonomia em relação aos demais, mas que ao mesmo tempo todas as partes apostam numa inteligência conjunta.

Essa oposição está latente numa leitura transversal da obra de Ana Dias Batista. Por mais que se possa intuir uma forte coerência e até nomear linhas de força e tendências na sua pesquisa artística, também são visíveis um conjunto de estratégias que interrompem intencionalmente uma compreensão imediata do todo. O seu trabalho testa e reflete sobre as operações e mecanismos intrínsecos à sua própria existência, mas simultaneamente escapa de ruminações teóricas que poderiam veiculá-lo a conteúdos exemplares. A sua obra resulta de uma atenção à conjuntura social onde se insere, mas qualquer teor crítico expressado por ela não se dá positivamente, como fim, mas apenas como interrupção. A artista aponta para a arbitrariedade de certas estruturas e rituais sociais, sem denúncia, crítica explícita ou partido ideológico, e quando parece que a obra finalmente se “dá a conhecer”, ela cria uma reviravolta no enredo, apresentando novas pistas para outras ilações.

Bruno de Almeida | 2017.10.25

Forro Brasil, 2007_teto rebaixado feito de placas de gesso pré-moldadas com abóbadas centrais, do modelo conhecido como “placa Brasil”_Vista da exposição “Bolsa Pampulha”, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil

Queimada, 2009_papel de parede que reproduz em módulos uma parede doméstica, com padrão listrado, rodapé, tomada e três pinturas emolduradas. As pinturas, executadas sob encomenda, retratam três momentos de um incêndio florestal. Numa segunda visada, sugerem continuidade espacial, conformando uma única vista panorâmica da floresta incendiada_Vista da exposição “Programa”, Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil_Pinturas: Nilton Bueno_Fotos: Edouard Fraipont

Faça aqui (calçada), 2015_ piso de cimento com chaves incrustadas em disposição regular, entre as quais está a que abre as portas do Ateliê397. O trabalho incluiu ainda um piso no corredor interno do espaço, onde as chaves foram distribuídas aleatoriamente_Exposição “Faça aqui”, Ateliê397, São Paulo, Brasil_Fotos: Edouard Fraipont

Painel, 2015_coleção de chaves-propaganda usadas negociadas (compradas ou trocadas por peças novas) com chaveiros da cidade de São Paulo. De cada original foi feito um número aleatório de réplicas em MDF cru. Os modelos foram distribuídos na parede em referência aos painéis que, nos chaveiros, contêm as chaves reais que ainda não foram gravadas_Dimensões variáveis_Exposição “Faça aqui”, Ateliê397, São Paulo, Brasil_Fotos: Edouard Fraipont

Gênio, 2015_plástico inflado com gás hélio_300 x 350 x 250 cm / Molde-Modelo, 2015_fibra de vidro_35 x 250 x 100 cm / Cortina, 2015_pintura sobre paredes e portas da galeria, executada por grafiteiro contratado pela artista_dimensões variáveis_Vistas da exposição “Espelho curvo”, Galeria Marília Razuk, São Paulo, Brasil_Fotos: Edouard Fraipont

H16, Mendes Wood DM, São Paulo, 2013_modelo em escala 1:4 do estande da galeria Mendes Wood na feira sp-arte de 2013, atualizado diariamente conforme o estande original_Exposição “Lugar Comum”, Laboratório Curatorial, sp-arte, São Paulo, Brasil

Livro das escalas, 2016_livro de artista; impressão digital e sobrecapa em papel pedra_ aprox. 13 x 28 x 42 cm (aberto)_Fotos: Edouard Fraipont

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